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Os portugueses foram o primeiro povo europeu a chegar ao Japão

O primeiro povo europeu a chegar ao Japão

Japonesismos

Por Professor Cláudio Moreno

Prezado Professor: meu namorado diz que o idioma japonês só contribuiu para nossa língua com nome de comida fria e sem gosto (sushi e sashimi) e de lutas marciais (judô e caratê). Eu tenho certeza de que recebemos outras palavras japonesas, mas na hora não me ocorreu mais nenhuma para contra-argumentar. O senhor pode ajudar?.

Bárbara L. — Londrina (PR)

Minha prezada Bárbara: é evidente que recebemos vários vocábulos japoneses além desses. Para tua informação, os portugueses chegaram ao Japão quarenta anos depois do descobrimento do Brasil, tornando-se os primeiros ocidentais a estabelecer relações diplomáticas e comerciais com aquele país.

Nesse período de cinco séculos, muitos elementos do Japão foram incorporados às culturas ocidentais, trazendo consigo, inevitavelmente, as palavras correspondentes.

Assim, entraram no Português termos universalmente conhecidos como soja, samurai, gueixa, haicai, haraquiri, zen, origame, quimono, xógum, bonsai, saquê. De menor fama, entraram também cabúqui (gênero teatral), catana (tipo de espada), tofu, iquebana, poncã (tipo de tangerina) e biombo. Das lutas marciais, além do judô e do caratê, vieram o jiu-jítsu, o aiquidô, o quendô, o caratê, o sumô (entre outras), além do inevitável tatame — sem falar no ninja, que já vi até usado como adjetivo elogioso! (“Ele teve uma atitude ninja“). A imigração japonesa para as Américas gerou novos tipos sociais, como o decasségui, o gaijin e o nissei. Da Segunda Guerra, mantivemos o camicase e o banzai (que alguns etimologistas malucos dizem ser a origem do nosso obscuro banzé…). A última década assistiu à invasão do caraoquê (espécie de divertimento solitário musical, onde alguém pensa que canta, enquanto os demais sofrem); o pessoal dos quadrinhos e dos desenhos de animação usa mangá e anime com naturalidade; o crescente prestígio da culinária japonesa vai nos trazer todo um vocabulário especializado — e assim vão as coisas, se nenhum deputado de pouca visão resolver hostilizar todos esses vocábulos, acusando-os de estrangeirismos que ameaçam a pureza de nosso idioma.

Não perguntaste, mas vou te informar, de inhapa: o Português também deixou sua marca no Japão. Tal foi a penetração lusa na Ásia, a partir do séc. XV, que nossa língua foi usada, por vários séculos, como a língua geral de comércio em todos os portos asiáticos. Samuel Purchas, autor do séc. XVI que relata as viagens e expedições comerciais inglesas aos países do Oriente, fala de um mercador inglês que, no Japão, teve de usar o Português para conseguir fazer-se entender pelo imperador. Daí teriam ingressado, no Japonês, alguns vocábulos nossos. Peixoto da Fonseca (O Português entre as Línguas do Mundo. Coimbra, Almedina, 1985) menciona, entre outras, furasuko (de frasco), marumeru (de marmelo), bisukettu (de biscoito), pisutoru (de pistola), retteru (de letreiro), arufabetto (de alfabeto) — explicando que a sílaba japonesa é sempre ou uma vogal isolada, ou uma consoante seguida de vogal, o que os faz desmanchar os encontros consonantais estrangeiros com o acréscimo de um /u/ (em frasco, o /u/ aparece entre o /f/ e o /r/ e entre o /s/ e o /c/). Além disso, como todos sabemos, eles substituem o /l/ das palavras exóticas pelo /r/ (o que faz da Coca-Cola uma /kokakora/). Pronto; podes voltar a discutir com o namorado, Bárbara. Abraço. Prof. Moreno

 

Você sabia que os portugueses foram o primeiro povo europeu a chegar ao Japão?

 

Arigatô vem de obrigado?

Por Professor Cláudio Moreno


Quando escrevi sobre japonesismos — vocábulos japoneses que entraram no Português —, indiquei, para serenar o ânimo daqueles que se rebelam contra essas importações, alguns exemplos de vocábulos de nossa língua que passaram a fazer parte do léxico do Japonês. Jogo limpo: dá cá das tuas, toma lá das minhas. No entanto, como não estamos acostumados a exportar palavras, o artigo desencadeou uma série de mensagens de leitores, certamente entusiasmados com a reconfortante idéia de que agora era a nossa vez de invadir o léxico alheio.

Além dos que listei naquele artigo, foram lembrados também os seguintes: pan (“pão”), kappa (“capa”), rozario (“rosário”), tabako (“tabaco”) e shabon (“sabão”), entre os óbvios. Mas há outros que não são tão evidentes. Lembro as alterações que ocorrem na transposição desses vocábulos para o sistema fonológico do Japonês:

as sílabas são constituídas de vogal, ou de vogal+consoante; há a troca do /l/ por /r/; insere-se um /u/ entre as duas consoantes dos encontros — que fazem o onipresente McDonald’s transformar-se em algo como makudonarudo. Com essa explicação, dá para reconhecer arukuru (de álcool), biduru (de vidro), birudo (de veludo — essa é boa!) e karuta (de carta de baralho).

A cultura japonesa chama esses vocábulos estrangeiros de gairaigo, termo traduzível aproximadamente como “linguagem que veio de fora”. Primeiramente oriundos do Português e do Holandês, devido ao comércio marítimo do séc. XVI, passaram a provir de todas as línguas ocidentais, a partir da abertura dos portos do Japão no séc. XIX. Como em outros lugares deste pequeno planeta, movimentos ultranacionalistas de direita tentaram banir esses estrangeirismos, principalmente nos anos que antecederam a entrada do Japão na 2a Guerra. No entanto, como era de se esperar, a linguagem, com suas leis próprias e irrevogáveis, continuou a incorporar esses vocábulos ao léxico japonês, adaptando-os e modificando-os de modo a torná-los indistinguíveis dos demais (ao menos para falantes não-nativos). Com a sabedoria milenar do Oriente, nenhum deputado japonês até hoje propôs uma lei que torne proscritas as palavras gairaigo

Agora, uma lenda precisa ser desfeita: não poucas vezes encontrei a explicação de que a forma clássica de agradecimento japonesa, arigatô, teria vindo do Port. obrigado. Explica um “entendido”: “com a mania (?) dos japoneses em deixar a última sílaba mais forte, obrigado virou obrigadô — com o tempo, arigatô“. Nossa! Isso é que é demonstrar profundo conhecimento e forte intuição lingüística! Agora, falando sério: arigatô, que podemos traduzir por nosso obrigado, vem de arigatai (“raro, difícil de encontrar”). Esse vocábulo já era usado no Japão muito antes de terem visto um português vivo e pode ser encontrado em textos antigos da literatura japonesa; aliás, era de se esperar que os japoneses, que falavam seu idioma mil anos antes dos portugueses aparecerem por lá, já soubessem expressar sua gratidão com palavras próprias. Essa explicação do “obrigadô” até parece coisa daquele sábio que demonstrava como a corneta veio do tambor: “Muito simples: o tam virou cor, e o bor virou neta“!

 

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Acesse também os artigos originais em:

Japoneismos - Sua Língua - Por Professor Cláudio Moreno

Arigatô vem de obrigado? - Sua Língua - Por Professor Cláudio Moreno

 

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